pássaros nativos ao desaparecimento local
Fortaleza faz 284 anos hoje. É jovem, mas nas últimas décadas seu corpo mudou bastante. Costume típico das cidades grandes, seu povo olha pouco para o céu, mas nem é preciso cultivar esse hábito para notar grandes mudanças acima do horizonte. Fortaleza ganhou concreto e ao azul celeste foi adicionado um pouco de ‘cinza-prédio‘.
Isso é notório, mas é preciso um pouco mais de observação para perceber que o mesmo céu que ganha massa perde asas.
Nossos pássaros estão diminuindo em quantidade e diversidade. De acordo com o analista ambiental do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama), o biólogo Daniel Accioly, isso deve-se muito à introdução de espécies exóticas (não nativas) no ecossistema local. Pássaros como o pardal, original da Europa, competem com os animais nativos, como os canários-da-terra. Em alguns casos, sua maior adaptabilidade os faz predominar sobre os nativos. Isso acontece também com os pombos.
Tais pássaros adaptam-se muito bem ao ambiente urbano e quando competem por comida e espaço com os nativos, sua superioridade muda o cenário, ‘sufocando’ os demais.
A invasão tem outros protagonistas, como o nim indiano. Com porte entre 10 e 15 metros e cerca de 150 substâncias de interesse comercial, a árvore asiática foi introduzida e rapidamente popularizada no Brasil, inclusive em espaços domésticos, principalmente por suas propriedades inseticidas, afinal, estima-se que combata com eficiência mais de 120 espécies de insetos. Acontece que os frutos do nim, que no Brasil só não se adapta na região sul, são esterilizantes aos pássaros, que os comem quando tem seu habitat preenchido por eles.
O biólogo Thieres Pinto, consultor ambiental, estima que cerca de 150 espécies de aves habitem Fortaleza e que 70% destas dependem de habitat mais íntegro, o que as torna intolerantes a urbanizações. “Algumas, como as maracanãs, já estão extintas
por aqui”, diz.
Além da introdução de tipos exóticos e invasores, Thieres atribui o desaparecimento local de espécies como as maracanãs ao tráfico de animais e políticas do passado. O canário-da-terra é muito vendido ilegalmente por ser usado em brigas e hoje é raro em Fortaleza. E ainda no século 19, a política governamental obrigava os agricultores a entregar 30 cabeças de papagaio às autoridades juntamente com os impostos. As aves eram vistas como pragas, obstáculos ao desenvolvimento comercial da agricultura.
A diminuição do números de espécies (e indivíduos) de aves, além do próprio prejuízo natural que representa, causa danos à população de seres humanos, pois aumenta populações de cupins, muriçocas e formigas, que seriam presas dos pássaros.
Caramujos são grande ameaça
Os caramujos que vem infestando a cidade na última década representam ameaça à saúde pública. Os animais da espécie achatina fulica (foto) são altamente invasores e disseminadores de doenças. Sua introdução no Brasil deu-se para a comercialização de “escargots”, a partir de meados de 1988. Em Fortaleza, com o fracasso comercial, muitos espécimes foram soltos e acabaram incorporando-se ao ecossistema local.
A achatina representa preocupação por sua adaptabilidade. A espécie já está presente em todas as regiões do País e é voraz, alimentando-se de cerca de 500 espécies de plantas. A sua presença em ambiente não nativo pode provocar perda da diversidade biológica, ou seja, extinção de espécies nativas. Ele possui alta taxa de reprodução e invade até áreas de mata, o que facilita sua disseminação.
Entre as doenças que transmite está a meningite eosinofílica, transmitida por parasita que se aloja no sistema nervoso central do homem. Os sintomas podem arrastar-se por meses e podem causar lesões oculares permanentes.





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